SANDRA JARDIM
08/09/2016
A firmeza e a doçura que abrem caminhos

Sandra Jardim é integrante do Ministério Público do Estado de São Paulo e hoje atua como Procuradora junto às Câmaras Criminais de Segundo Grau do Tribunal de Justiça, que julgam os recursos que vêm de todo o Estado de São Paulo. Apaixonada pelo seu trabalho, já atuou em mais de 500 júris em sua carreira, muitos deles de grande repercussão e que chocaram o país.

Luxus Magazine esteve com essa mulher forte e admirável, que contou mais detalhes sobre esse seu trabalho tão intenso e sobre os propósitos que a incentivam a dedicar-se cada vez mais, todos os dias.

Sandra, quais foram os processos mais emblemáticos em que você atuou na sua carreira?

Atuei em muitos processos de crimes que tiveram grande repercussão como o caso da menina Isabella Nardone, em que elaborei o Parecer e fiz sustentação oral no Tribunal, assim como o caso do Gil Rugai e o da Operação Castelinho. O mais recente, é o caso da Chacina do Carandiru, que marca história há 24 anos, estando pautado para julgamento ainda este mês. Sustentarei a condenação, eis que houve injustiça e num regime democrático não se pode tolerar fatos como esse. Além disso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos já aplicou sanções ao Brasil em razão desse caso. Veja que o próprio PCC surgiu como resposta a essa chacina; toda criminalidade surge no momento em que o Estado desaparece. O mesmo ocorre quando são colocados 40 presos numa cela que foi feita para apenas sete, pois assim não há como recuperar ninguém.

Qual desses casos você considera que foi mais impactante para a sociedade?

Talvez o mais chocante tenha sido o caso Isabella Nardone, pelas circunstâncias do crime. Abalou a todos por envolver uma criança de uma casta privilegiada, que não poderia ser justificado pela falta de oportunidades ou de recursos financeiros. Eram pessoas de uma classe mais abastada, e isto fez com que a população mais favorecida se abalasse e passasse a pensar que isto poderia também ocorrer dentro de suas famílias. Como não podia ser justificado pelas questões sociais ou financeiras, foi um caso de pura maldade humana e isso nos assusta.

E como é a Sandra Jardim no dia a dia?

Sou muito acelerada. Tenho muitos compromissos durante o meu dia e só dou conta porque tenho minhas assistentes que são maravilhosas e que me ajudam a administrar as coisas pessoais. É grande o número de processos sob minha responsabilidade e duas vezes por semana vou ao Tribunal de Justiça; duas vezes por semana trabalho no meu gabinete na Procuradoria e uma vez por semana fico em meu escritório para elaborar os Pareceres. Mas,  a par de tanto trabalho, também sou muito vaidosa e encaixo a ida ao cabeleireiro, à academia, estar com minha filha e outras atividades que trazem bem-estar a toda mulher. Adoro bolsas, perfumes, óculos e meu hobby são os carros conversíveis, tenho dois fuscas adoráveis!

Como foi para você conciliar o papel de mãe, esposa e profissional? Com tantas demandas, é possível exercer bem todos esses papéis?

Tudo se tornou possível e prazeroso quando descobri que não podia ser perfeita. Com o tempo, entendi não conseguimos atingir a perfeição e se houver essa expectativa, certamente, haverá frustração. Então, devemos ficar em paz quando fazemos o nosso melhor, apenas isso. Aos 47 anos, sai de um casamento que durou 23 anos. No início, senti uma dor tão grande que pensei que iria morrer...Depois percebi que, não só não morri, como também aprendi a aproveitar a vida em minha própria companhia e que é possível ser feliz assim.

Como é ser uma mulher atuando na área da Justiça Criminal?

Trabalho em uma área eminentemente ocupada por homens. Quando ingressei no Ministério Público, dos 47 candidatos aprovados naquele concurso, somente sete eram mulheres. Então, com muita luta e sacrifício, conquistei um poder que não é meu, mas que eu utilizo como instrumento para o empoderamento de outras mulheres e para a igualdade com os homens. Infelizmente, fala-se muito em igualdade, mas na prática, isso não acontece. Por isso, é importante falar da questão, pois enquanto não encararmos de frente e aceitarmos que a diferença, de fato, existe, não podemos mudar a realidade. Na minha área, por exemplo, há um grande número de mulheres que adentraram nos últimos anos, porém, não houve nenhuma mulher nos mais altos cargos da instituição, como Procuradora do Estado. O poder só tem utilidade se puder transformar e eu sinto que meu papel é abrir caminho para as novas gerações, é quebrar paradigmas para que outras mulheres possam trilhar esse caminho com mais respeito e real igualdade de condições.

O que é luxo para você?

Luxo é ser feliz! E isso não está relacionado com a condição social.   

Sandra Jardim